A arte não é. A arte é como.

Queridas, devido ao grande sucesso diário do post sobre Pop Art, eu resolvi publicar aqui mais um ensaio meu. Dessa vez sobre arte conceitual, mais complicadinho de entender mas espero que o que eu escrevi dê pelo menos uma idéia do que é arte conceitual.

Escrever sobre conceitos é algo relativamente complicado quando se vive numa época onde conceitos são transformados, construídos, destruídos e reconstruídos numa velocidade absurda. Discutir conceitos na arte é então uma tarefa para pouquíssimos. Aqueles que a isso se atrevem não raramente são pegos de surpresa quando se dão conta de que estão utilizando pré-conceitos para definirem novos conceitos que já “surgem” então com uma enorme carga de preconceitos atreladas a eles. Bem, isso pode parecer confuso e acredite, é para mim também, uma mera estudante universitária da graduação. O que aqui nos interessa é o fato de a arte denominada conceitual ser um estilo (se é que podemos falar de estilo quando se fala de arte conceitual) extremamente complexo e cheio de divergências entre os próprios artistas que se encaixam nesse “perfil” – cabe aqui lembrar que muitos dos artistas “conceituais” não se reconheciam como tais, como já aconteceu em diversos movimentos da história da arte.

 

Enfim, o que acontece na arte conceitual é muito diferente dos “ismos” anteriores, talvez com exceção do minimalismo que como a arte conceitual, tem uma preocupação muito maior com o processo do que com o objeto resultante deste processo, no entanto, a crítica destes últimos aos primeiros é que sua arte seria, ironicamente, minimalista demais, sem explorar o processo mais a fundo, a interação com o espectador. É importante recordar que a arte conceitual é diferente do conceitualismo. A arte conceitual é ampla e podemos falar do uso do conceito como mote para a criação de uma obra desde Duchamp.

 

O conceitualismo, por outro lado, foi um movimento de artistas restrito aos anos 60 e 70 que negavam tudo o que era considerado arte, “seus sistemas de legitimação, e opera não com objetos ou formas, mas com idéias e conceitos” citando Cristina Freire em seu A Arte Conceitual. A autora continua dizendo que o movimento era contra a autonomia da arte, “a autoria se esfacela frente às poéticas de apropriação”, ou seja, o artista conceitualista produz na sua mente suas idéias e conceitos e não interessa se é ele ou outra pessoa ou várias outras pessoas que “concretizam” aquilo idealizado por ele. Acontece, segundo a crítica de arte Lucy Lippard, uma tendência à desmaterialização da arte. E claro que as vanguardas como o surrealismo, o dadaísmo, etc. tiveram grande importância na formação de um estilo tal como o conceitualismo. Podemos citar Marcel Duchamp então como o principal precursor das idéias conceitualistas com seus readymades. Provavelmente o movimento que mais se destacou dentro do conceitualismo foi o Fluxus, um grupo de artistas espalhados por diversos países que questionavam o valor de uma obra de arte, a instituição do museu e das galerias de arte como espaços que excluíam a maior parte da população, e então, esses artistas se propuseram a ir além do objeto de arte e “trabalharem” com a mídia digital e sobretudo com performances em espaços públicos. Para citar alguns dos artistas participantes do Fluxus: Joseph Beuys, George Brecht, Yoko Ono, Nam June Paik, George Maciunas, o principal articulador do movimento, entre outros. Para os artistas do Fluxus não deveria existir uma diferença entre vida e arte, as duas coisas são intrinsecamente ligadas e não podem jamais ser analisadas sob um ótica que aparta uma da outra.

No Brasil, artistas como Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Arthur Barrio, Lygia Pape, entre outros, eram considerados conceitualistas apesar de sua resistência em serem taxados como tal. Porém, suas obras carregam um valor conceitual difícil de se desvencilhar dessa denominação. Uma das razões pelas quais não se interessavam em ser chamados de conceitualistas é a diferença entre este movimento no resto do mundo e aqui na América Latina onde o envolvimento da arte com a política era fundamental para desenvolverem, a partir daí, os seus próprios conceitos. Como exemplo, iremos analisar a “obra” de Cildo Meireles “Quem matou Herzog? “

Em plena ditadura militar, Cildo Meireles carimba centenas de cédulas de dinheiro com os dizeres: Quem matou Herzog? Vladimir Herzog era um jornalista croata naturalizado brasileiro, filiado ao Partido Comunista Brasileiro e que se tornou o símbolo da luta pela democracia e pela liberdade após sua morte no presídio do DOI-CODI quando teria supostamente se suicidado, fato  contestado por muitos durante muitos anos e hoje é consenso que Herzog teria sido vítima de tortura, ou como ele próprio diria, suicidado pela ditadura. 

 

A idéia de Cildo era incitar na mente da população esse tipo de questionamento, para que o alienamento perante questões políticas e graves como essa se tornasse cada vez mais raro. A idéia da apropriação fica aqui muito clara – a intenção era que o autor da idéia permanecesse no anonimato e através de um instrumento de circulação tão eficaz e que jamais seria destruído, a pergunta se tornaria uma constante na vida da população, e então as pessoas logo se apropriariam de sua idéia e sua “autoria” passaria a ser algo desimportante ao mesmo tempo que haveria um engajamento da vida social com a vida política, e a arte se encontraria neste limite tênue que separa, ao mesmo tempo que conecta as duas coisas. 

 

 

Por Luísa Dalé Silva em 08.06.2011

Lembrando que a reprodução total ou parcial deste conteúdo sem o consentimento da autora ensejará o enquadramento em crime previsto no artigo 184 do Código Penal Brasileiro.

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