Deixa beijar? Um desabafo masculino

Deixa beijar

Sei que esse papo da complexidade das mulheres é tema já batido e surrado, mas fiz uma descoberta revolucionária e, portanto, preciso revolvê-lo um pouco mais.

Como sabemos, as mulheres são seres minuciosos, e é preciso ser um sherlock para apreender cada sinal enviado por elas. Ainda que a natureza da mensagem seja a mais simples possível, verbal, não se deixe enganar pelos seus ouvidos. Muitas dizem “talvez” quando querem dizer “não” e dizem “quem sabe” quando querem dizer “sim” – percebe a sutileza?

Pesquisas recentes estimam que apenas 30% da nossa comunicação se estabeleça pelo diálogo. A linguagem corporal reina, com 70% de participação. Agora, trata-se de uma média entre o comportamento de ambos os sexos. Como um representante dos homens, posso  afirmar que devemos ceder ao corpo, quando muito, uns 10% de crédito em nossa comunicação. Logo, para chegarmos à média de 70%, temos de considerar a linguagem corporal feminina como 130% atuante. Os números parecem absurdos, eu sei, eu nunca fui bom com eles; porém, dentro do contexto, até que soam razoáveis, não é?

Alguns destes sinais corporais já são absolutamente claros para nós: quando ela mexe o cabelo ou se inclina em nossa direção, temos ciência de ser um modo de demonstrar interesse. Pergunto-me quantos séculos os homens demoraram para decifrar este código, e a única resposta satisfatória envolve  a  hipótese de que uma mulher tenha revelado o segredinho a um amigo, e este tratou de espalhá-lo. Sendo assim, o mérito não é todo nosso.

O discurso vigente é que, se estamos lost in translation, é por pura negligência, compadres. Então, ao levar bronca por não termos reparado que ela aparou as pontas do cabelo ou está com os cotovelos menos ressecados, nos sentimos mal e reiteramos nossa culpa. Mas quer saber? Nem elas mesmas caem nessa lorota de negligência. O fato é que somos incapazes de alcançar o grau de comunicabilidade desenvolvido pelas mulheres. Elas sabem disto e, se usam este argumento simplório da incúria, é só para não ter de dar maiores explicações; afinal, não dá para explicar à garotada da 3ª série que os interesses financeiros e políticos estão por trás de todos os grandes eventos históricos, não é?  3ª série – é onde estamos.

A minha descoberta é prova irrevogável da tremenda evolução feminina. Pois eu descobri, meus amigos, que existe uma cor de esmalte chamada Deixa Beijar.

Sim, sim, sim. Enquanto os homens ainda estão desenvolvendo sua visão para além das 20 e poucas cores, incluindo aí os tons claros e escuros; enquanto eles demoram anos para identificar a cor salmon sem confundi-la com o goiaba; enquanto tentam utilizar as novas teorias no campo da física quântica para decifrar cores como henna e gelo fosco – enquanto tudo isto acontece, as mulheres já elaboraram um sistema no qual as cores não expressam simplesmente cores.

Não falo nem do clássico estado de espírito que a cromoterapia, o Feng Shui e suas variantes estabeleceram em nossa cultura. Refiro-me a estados de espírito condizentes com o sujeito pós-modernidade (Sexy, Preguicinha, Energia); estou falando da capacidade feminina de expressar, com as cores, as condições climáticas (Amanhecer, Fog); as regiões político-geográficas (Nova York, França, Arábia); os ritmos musicais (Samba, Blues, Jazz); comida (Leite de Coco, Cappuccino, Maçã do Amor); a história (Rosa Antigo); as coisas mais variadas, como Poema, Videoclipe, Blecaute… Existe mesmo uma cor Vida e uma Via Láctea!

Ao contrário de nós, homus sapiens oculus primitivus, as mulheres já se configuraram seres oculus sapiens sapiens, e conseguem encontrar uma cor para tudo que é, que foi e que será. As pontas de seus dedos não mais se restringem ao ato de nos chamar, nos fazer aquelas cosquinhas leves ou mesmo tirar meleca do nariz: elas são um espaço de discurso para as mulheres. Deve-se ter cuidado quando tocar as unhas dela; você pode descompassar o seu samba, perturbá-la durante sua preguicinha ou mesmo meter a manopla suja na sua deliciosa maçã do amor.

Como saber o que estaremos enfrentando?

Particularmente, nenhuma dessas cores me deixa tão angustiado quanto o Deixa Beijar. Agora, quando uma garota estiver falando comigo e passar a mão pelos lábios ou pelo pescoço – ela estará apenas se coçando ou se insinuando, provocando, falando com todos os dedos que ela me Deixa Beijar? Entrementes, e se não for o Deixa Beijar mas o Tem Que Morder? Ou mesmo o Não Me Toque? Um erro pode ser fatal e acabar com todo o sonho.

Que Deus nos ajude, camaradas, sobretudo aos que têm problema de visão como eu. A implacável lei darwiniana da sobrevivência do mais apto logo nos alcançará com força, e daqui pra frente só os que conseguirem montar um degradê perfeito sobreviverão.

Pelo colega e neobrasiliense Breno Fernandes em abreparentese.com

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